30 de março de 2015

Bula

Deixar que a loucura se esvaia
para as extremidades do corpo
(é muito mais difícil),
quando na imaginação de nós,
tão eu evoluído,
se recai todo peso estendido
numa balança qualquer de farmácia.

25 de março de 2015

O dia 15

A paixão é corrupta, já aprendi. Se a escrita não fosse de todo mascarada - subvertida na ordem natural do mundo - contaria do meu encontro primitivo com um lobo solitário. E como se soubesse a ordem da próxima palavra e queimasse a minha pele, feito animal raivoso escondido na sombra, desejo que a minha emoção exista.
Dentro da minha cômoda, todas as roupas guardadas, todo valor de cuidado humano e o sentimento de que isso faz parte da minha espécie. Sei que perdi algo, mas não sei o quê. Nos corredores infinitos do real, sempre se perde algo. Como saber perder aquilo que se exprime na qualidade intensa de existência? Os valores mais intrínsecos à alma constroem alguma persona engessada. O barulho da gota de chuva caindo dos meus olhos apetece à minha essência, ao mais honesto de minhas falhas, ao mais embaçado de minha visão.
Por toda leitura deturpada, renegada, por todo olhar simbólico que se põe na construção do signo, por toda construção dissimulada no texto, tecido em vestes tênues, remonto o quebra-cabeça do meu dia; e de repente percebo que quando se perde demais dentro de si mesmo, corrompe-se. Não quero ter que lembrar subitamente, como um desespero qualquer de domingo fastiento. Lembrar é reviver, resgatar, assumir todas as olheiras cruéis nas manhãs, é construir o espaço do que se sente mais tenro na vida: a memória. A memória vale confinada à desatinação, por isso na fala seguinte diria "te amo!" e me tornaria estúpido.