25 de novembro de 2015

iluminado

como luminoso o corpo erguia
a energia de ser o que era
não contara com o rosto úmido
do tamanho da natureza de si
caminhava aos aflitos
os passos aprisionavam o infinito
sentindo só mais um pouco
a dor que move a matéria das coisas

o espelho da vida é largo, meu velho
como um sopro de melancolia
as revelações mais profundas
habitam a maneira mais sincera
do que fora em todas eras
e estarás por dentro um dia
do vacilo que te tornara
maldito

19 de outubro de 2015

clarão no escuro

só podia-me ver claro se tu me roubasses a nuvem do pensamento. a face pálida me olhava como um susto. o susto era eu, meu susto ao nascimento dos contornos em preto e branco. viver era então me colocar na dor do outro, era sofrer pelo outro. até que não me sobrassem mais partidas ou repartidas ou bipartidas ausências na noite. revelei a face, descobri o segredo que me colocara diante da mais sutil forma de me compreender: o silêncio. e como quem rui a própria quietude, imprimi todas as minhas senhas na parede do quarto, colei todas as figuras do meu mundo para que me pudesses ler... para que, ao sonhar, as imagens me guiassem à tua imagem construída, com todos teus adereços nos olhos. sinto que continuo a te perder levemente para o tempo. e quanto mais sinto, mais sou.

3 de outubro de 2015

Tettigoniidae

pensar me cabia como nó na garganta.
como perder a sensibilidade
e anestesiar as veias


já me doei a (quase)
tudo que acredito ser o melhor,
não existe melhor

quando tudo se cansa dentro
de uma esperança morta na porta de casa
esperança morta!
pisoteada num gesto grotesco
e impuro de me sobrepor

escorreguei um tormento . . . . . . .
como quem adota ares no peito
de algum destino cruel
por ter arrancado uma vida

1 de julho de 2015

o risco tácito das palavras; ou perigos emergentes de uma paixão; ou cicatriz na face do mundo

aos poucos a vida cuida de esmaecer as mágoas.
o contorno dos lábios, ao sorrir, estende-se na face do mundo. as cores daquela paixão antiga agora se parecem em sépia, num filme velho de câmera analógica. a foto fora riscada, como se quisesse apagar os resquícios do passado.
as horas não se compensam mais nos cigarros, parou de fumar. as lembranças se perdem entre um baseado e outro; como se a mente dissesse mais e mais da ausência.
a mudez da noite é imensa quando se tem muito a dizer - emerge do próprio risco tácito do ruído.
no atropelo da próxima palavra, há o perigo de se revelar por inteiro.

7 de abril de 2015

Mentiras

"Nada ficou no lugar
Eu quero entregar suas mentiras
Eu vou invadir sua alma
Queria falar sua língua
Eu vou publicar seus segredos
Eu vou mergulhar sua guia
Eu vou derramar nos seus planos
O resto da minha alegria"


30 de março de 2015

Bula

Deixar que a loucura se esvaia
para as extremidades do corpo
(é muito mais difícil),
quando na imaginação de nós,
tão eu evoluído,
se recai todo peso estendido
numa balança qualquer de farmácia.

25 de março de 2015

O dia 15

A paixão é corrupta, já aprendi. Se a escrita não fosse de todo mascarada - subvertida na ordem natural do mundo - contaria do meu encontro primitivo com um lobo solitário. E como se soubesse a ordem da próxima palavra e queimasse a minha pele, feito animal raivoso escondido na sombra, desejo que a minha emoção exista.
Dentro da minha cômoda, todas as roupas guardadas, todo valor de cuidado humano e o sentimento de que isso faz parte da minha espécie. Sei que perdi algo, mas não sei o quê. Nos corredores infinitos do real, sempre se perde algo. Como saber perder aquilo que se exprime na qualidade intensa de existência? Os valores mais intrínsecos à alma constroem alguma persona engessada. O barulho da gota de chuva caindo dos meus olhos apetece à minha essência, ao mais honesto de minhas falhas, ao mais embaçado de minha visão.
Por toda leitura deturpada, renegada, por todo olhar simbólico que se põe na construção do signo, por toda construção dissimulada no texto, tecido em vestes tênues, remonto o quebra-cabeça do meu dia; e de repente percebo que quando se perde demais dentro de si mesmo, corrompe-se. Não quero ter que lembrar subitamente, como um desespero qualquer de domingo fastiento. Lembrar é reviver, resgatar, assumir todas as olheiras cruéis nas manhãs, é construir o espaço do que se sente mais tenro na vida: a memória. A memória vale confinada à desatinação, por isso na fala seguinte diria "te amo!" e me tornaria estúpido.

23 de fevereiro de 2015

Num lapso de memória

Ao acender o cigarro, ele pensou:
"Não faço mais planos!
O mundo foi feito para acontecer hoje
e o agora é tão importante no tempo,
como nós cercados pelo imprevisível."
Mas isso só por um momento.

19 de janeiro de 2015

Bermuda

A linha que desenha a veste
é a mesma que desenha a palavra
No seu breve instante tecido
esconde os cus, picas e bocetas
Numa tentativa quase válida
de cobrir o corpo

O corpo é nu,
viajante desconhecido no tempo,
animal temero
das casualidades da vida
O corpo é,
sem bermuda, só corpo;

mas pelo perigo de ser diferente
ou de um olhar passageiro
por entre as nudezas de mim mesmo,
uso bermuda.