destas linhas me retiro de todo o possível, como se arranca a pulga de um cachorro. a pulga não o pertence tal qual a palavra não me pertence. eu, quanto narrador, quanto fictício, estou cheio de desmazelos decalcados no papel. eu, tão somente eu, que atravessei tantos séculos, quando a única coisa que sabia no início de minha própria existência era imaginar. imaginar a imagem. imaginar o fogo. imaginar a roda... e até vir a imaginar a palavra, precisei da imagem, do fogo e da roda. sombria, minha existência. obscura. com todas estas palavras silenciosas, habitadas na mais inatural forma de me representar, eu sou o homem.
a passagem fica ali na esquina. a passagem fica num ponto de ônibus. a passagem não fica mais, passa. depois de passada, volta. depois não se vê. estúpida em sua efemeridade, a passagem é, foi e será. e o que se passa? a incapacidade de guardar o intrínseco instante da escolha. a escolha não é, não foi e nem será, cheia de sua impossibilidade de me proteger, impõe-se também plural.
tenho apego por janelas, são portais. as janelas impõem uma posição: "não saias por aqui, mas veja-me!". e o que se vê é o que a janela não é: é tudo o que há além dela que realmente importa. tudo o que se passa por fora. é assim que, de repente, quase menos que de repente, num sorriso distante congelado ou no caminho de uma folha seca de uma árvore centenária ao chão, a imagem não é mais real e se forja singelamente da escuridão.
Um comentário:
Vc acredita em reencarnação?
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