7 de junho de 2013

Visão felina

Ouvi um miado. Fui até a janela e vi um gato branco, todo branco, de olhos negros saltados para mim. Não consegui dormir. Repeti interiormente "existe um dia amanhã", mas outra voz me respondia "mas não existe dia agora". E foi assim que a noite ladra envolveu meu estômago. Minhas têmporas saltitavam, minha testa suava... Peguei um casaco marrom gasto, calcei as primeiras sandálias que apareceram e saí de casa. Talvez eu nunca volte, porque a noite da rua parece mais acolhedora, mais minha, se parece com os olhos felinos que eu sustento em suspense.

Escuto uma bateria e uma guitarra surrando meu peito, então corro e me escondo com a mão no peito. O barulho me desvenda e sob o escuro eu sigo a lua. Espreito, tal qual gato negro despercebido, as janelas acesas. Há uma casa com um homem barbudo, escuto um sexo selvagem, sinto o cheiro do suor do homem escorrendo pelos ombros. Cansado, continuo a outro passo. Talvez haja passos entre o vento, mas não há distinção. O frio que queima os meus olhos, não percebe nada além de lágrimas felizes.

Prolongo esse pacto com a noite há mais tempo do que você possa imaginar, mais tempo que os grãos do Deserto da Namíbia, mais tempo que qualquer transgressão e transfiguração. Mais tempo que a existência do sonho, mais tempo que o vôo de uma águia, mais tempo do que o mito da esfinge. Permaneço nesse pacto com a noite até voltar a ser estrela ou até explodir aqui mesmo como luz.

Existe um gato em mim, existe a noite, existe a natureza de me sentir parte da natureza... Mas os tons de azul escuro vão-se dissipando nas retinas e tomando rosas, azuis claros, vermelhos, laranjas e cinzas. A manhã surge me envergonhando no meio da rua. Vejo o gato branco de perto, ele me fita com mais seriedade do que um pai severo. E meus passos alcançam o fim do escuro em direção a porta. Que porta? Que chave? Para vendar meu interior e dar-me a sensação de segurança, penetro o interior da minha selva. Assim permaneço através dos milênios, assim a noite permanece em mim.

Nenhum comentário: