Quando o amor se torna um jogo da forca, as letras que sobram saem da boca. A palavra que se pede enforcada vacila de modo experimental. As pernas e braços finos como os traços encolhidos são tão proporcionais quanto o ânimo parceiro. Um jogo, uma escolha.
Perder para o amor é tão necessário quanto à morte, perder as letras bem desenhadas, perder o temperamento. Só se ama bem quando se perde, quando se sabe o valor da perda, quando se esquece do sangue preso ao pescoço e se entrega a própria cabeça. Só se perde bem quando se aprende a morrer pelo que vale, pela lembrança, pelo momento que transpassa entre os segundos do ponteiro. Então se escolhe viver fora da representação, dentro do mundo criado, dentro da aura quieta, certo do mundo calado, certo da pessoa que separa você do ínfimo.
Dispenso a praticidade positivista, não se vê tão bem com os olhos. Não vemos que o corpo é o peso. Recusamos aceitar o negativo que equilibra. O ódio que pulsa no peito procurando uma visão antagônica lógica. O velho que supera a força na ideia. Esta mesma ideia ferida. O feio buscando integração. O desintegrado pedindo posição.
Na forca fétida há morte, há frio. Esquecemos o fétido, não o branco. O branco ainda continua sem rumo na mistura. A morte dos que amam ainda continua a pairar no peito como uma libélula, delicadamente suspensa no ar. A morte do amor não cai no esquecimento, tal qual raposa correndo contra o vento, assume o vulto. Não fujas! Pois a fuga é o tormento mais lento em vão. O pensamento já não foge no espaço imenso. Talvez chamem de liberdade o que chamo de prisão, condição de ser amargo, de ser, ser, ser...
Até dormir de medo, até visitar a consciência e pedir pelo irreal, que mora constantemente em nós. Até desvendar o real como noção do que se é, não do que se tem. Docemente converso com corujas, docemente me certifico de perder as palavras. Perco solvido em branco, no papel rascunho dispensado na lixeira, empenhado no esforço. E, só, então, movido pelo turvo, perpassa-me a sensação de findar o evitável a caminho do descaminho.
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