as divindades já sabiam dos nossos desencontros. maculavam e maquinavam até mesmo meu romance de cabeceira; que na cabeça desguardava sua face, renegava lágrima e paixão. e tão leve e simples pedias por perdão, e tão leve e simples eu recusava.
lembra-se da noite que juntos vimos duendes? eu duvidava, tu também, mas sentimos medo, fugimos, nos encontramos, deitamos, dormimos. a isso chamo de vazão, e expelimos tudo de nós e resgatamos todo nosso mal.
sei que ainda nos veremos na rua. sei que se me peco em te perder, me ganho; por isso continuo a me pecar, por isso estendo a mão para tentar alcançar o espectro solar.
não por isso te perdoo, não por ir e voltar, não por confusos sentimentos alcançados e cansados nos olhos, não pela arrogância da voz... lembro da voz. e se me lembro bem, não perdoo. eu peço ao vago que em mim ecoa para não te pedir, por tão simples cair numa certeza cósmica ressoada: liberdade.
18 de junho de 2013
9 de junho de 2013
Rascunho sobre o amor
Quando o amor se torna um jogo da forca, as letras que sobram saem da boca. A palavra que se pede enforcada vacila de modo experimental. As pernas e braços finos como os traços encolhidos são tão proporcionais quanto o ânimo parceiro. Um jogo, uma escolha.
Perder para o amor é tão necessário quanto à morte, perder as letras bem desenhadas, perder o temperamento. Só se ama bem quando se perde, quando se sabe o valor da perda, quando se esquece do sangue preso ao pescoço e se entrega a própria cabeça. Só se perde bem quando se aprende a morrer pelo que vale, pela lembrança, pelo momento que transpassa entre os segundos do ponteiro. Então se escolhe viver fora da representação, dentro do mundo criado, dentro da aura quieta, certo do mundo calado, certo da pessoa que separa você do ínfimo.
Dispenso a praticidade positivista, não se vê tão bem com os olhos. Não vemos que o corpo é o peso. Recusamos aceitar o negativo que equilibra. O ódio que pulsa no peito procurando uma visão antagônica lógica. O velho que supera a força na ideia. Esta mesma ideia ferida. O feio buscando integração. O desintegrado pedindo posição.
Na forca fétida há morte, há frio. Esquecemos o fétido, não o branco. O branco ainda continua sem rumo na mistura. A morte dos que amam ainda continua a pairar no peito como uma libélula, delicadamente suspensa no ar. A morte do amor não cai no esquecimento, tal qual raposa correndo contra o vento, assume o vulto. Não fujas! Pois a fuga é o tormento mais lento em vão. O pensamento já não foge no espaço imenso. Talvez chamem de liberdade o que chamo de prisão, condição de ser amargo, de ser, ser, ser...
Até dormir de medo, até visitar a consciência e pedir pelo irreal, que mora constantemente em nós. Até desvendar o real como noção do que se é, não do que se tem. Docemente converso com corujas, docemente me certifico de perder as palavras. Perco solvido em branco, no papel rascunho dispensado na lixeira, empenhado no esforço. E, só, então, movido pelo turvo, perpassa-me a sensação de findar o evitável a caminho do descaminho.
Perder para o amor é tão necessário quanto à morte, perder as letras bem desenhadas, perder o temperamento. Só se ama bem quando se perde, quando se sabe o valor da perda, quando se esquece do sangue preso ao pescoço e se entrega a própria cabeça. Só se perde bem quando se aprende a morrer pelo que vale, pela lembrança, pelo momento que transpassa entre os segundos do ponteiro. Então se escolhe viver fora da representação, dentro do mundo criado, dentro da aura quieta, certo do mundo calado, certo da pessoa que separa você do ínfimo.
Dispenso a praticidade positivista, não se vê tão bem com os olhos. Não vemos que o corpo é o peso. Recusamos aceitar o negativo que equilibra. O ódio que pulsa no peito procurando uma visão antagônica lógica. O velho que supera a força na ideia. Esta mesma ideia ferida. O feio buscando integração. O desintegrado pedindo posição.
Na forca fétida há morte, há frio. Esquecemos o fétido, não o branco. O branco ainda continua sem rumo na mistura. A morte dos que amam ainda continua a pairar no peito como uma libélula, delicadamente suspensa no ar. A morte do amor não cai no esquecimento, tal qual raposa correndo contra o vento, assume o vulto. Não fujas! Pois a fuga é o tormento mais lento em vão. O pensamento já não foge no espaço imenso. Talvez chamem de liberdade o que chamo de prisão, condição de ser amargo, de ser, ser, ser...
Até dormir de medo, até visitar a consciência e pedir pelo irreal, que mora constantemente em nós. Até desvendar o real como noção do que se é, não do que se tem. Docemente converso com corujas, docemente me certifico de perder as palavras. Perco solvido em branco, no papel rascunho dispensado na lixeira, empenhado no esforço. E, só, então, movido pelo turvo, perpassa-me a sensação de findar o evitável a caminho do descaminho.
7 de junho de 2013
Visão felina
Ouvi um miado. Fui até a janela e vi um gato branco, todo branco, de olhos negros saltados para mim. Não consegui dormir. Repeti interiormente "existe um dia amanhã", mas outra voz me respondia "mas não existe dia agora". E foi assim que a noite ladra envolveu meu estômago. Minhas têmporas saltitavam, minha testa suava... Peguei um casaco marrom gasto, calcei as primeiras sandálias que apareceram e saí de casa. Talvez eu nunca volte, porque a noite da rua parece mais acolhedora, mais minha, se parece com os olhos felinos que eu sustento em suspense.
Escuto uma bateria e uma guitarra surrando meu peito, então corro e me escondo com a mão no peito. O barulho me desvenda e sob o escuro eu sigo a lua. Espreito, tal qual gato negro despercebido, as janelas acesas. Há uma casa com um homem barbudo, escuto um sexo selvagem, sinto o cheiro do suor do homem escorrendo pelos ombros. Cansado, continuo a outro passo. Talvez haja passos entre o vento, mas não há distinção. O frio que queima os meus olhos, não percebe nada além de lágrimas felizes.
Prolongo esse pacto com a noite há mais tempo do que você possa imaginar, mais tempo que os grãos do Deserto da Namíbia, mais tempo que qualquer transgressão e transfiguração. Mais tempo que a existência do sonho, mais tempo que o vôo de uma águia, mais tempo do que o mito da esfinge. Permaneço nesse pacto com a noite até voltar a ser estrela ou até explodir aqui mesmo como luz.
Existe um gato em mim, existe a noite, existe a natureza de me sentir parte da natureza... Mas os tons de azul escuro vão-se dissipando nas retinas e tomando rosas, azuis claros, vermelhos, laranjas e cinzas. A manhã surge me envergonhando no meio da rua. Vejo o gato branco de perto, ele me fita com mais seriedade do que um pai severo. E meus passos alcançam o fim do escuro em direção a porta. Que porta? Que chave? Para vendar meu interior e dar-me a sensação de segurança, penetro o interior da minha selva. Assim permaneço através dos milênios, assim a noite permanece em mim.
Escuto uma bateria e uma guitarra surrando meu peito, então corro e me escondo com a mão no peito. O barulho me desvenda e sob o escuro eu sigo a lua. Espreito, tal qual gato negro despercebido, as janelas acesas. Há uma casa com um homem barbudo, escuto um sexo selvagem, sinto o cheiro do suor do homem escorrendo pelos ombros. Cansado, continuo a outro passo. Talvez haja passos entre o vento, mas não há distinção. O frio que queima os meus olhos, não percebe nada além de lágrimas felizes.
Prolongo esse pacto com a noite há mais tempo do que você possa imaginar, mais tempo que os grãos do Deserto da Namíbia, mais tempo que qualquer transgressão e transfiguração. Mais tempo que a existência do sonho, mais tempo que o vôo de uma águia, mais tempo do que o mito da esfinge. Permaneço nesse pacto com a noite até voltar a ser estrela ou até explodir aqui mesmo como luz.
Existe um gato em mim, existe a noite, existe a natureza de me sentir parte da natureza... Mas os tons de azul escuro vão-se dissipando nas retinas e tomando rosas, azuis claros, vermelhos, laranjas e cinzas. A manhã surge me envergonhando no meio da rua. Vejo o gato branco de perto, ele me fita com mais seriedade do que um pai severo. E meus passos alcançam o fim do escuro em direção a porta. Que porta? Que chave? Para vendar meu interior e dar-me a sensação de segurança, penetro o interior da minha selva. Assim permaneço através dos milênios, assim a noite permanece em mim.
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