16 de janeiro de 2013

Vida e morte das baratas

Na minha casa há um porão.
Desço lá todos os dias para escrever.
Há apenas uma lâmpada amarela
pendurada por um fio.
Por um fio também se penduram
as minhas idéias amontoadas.
Por um fio, muito do mundo
pode ser pendurado.
Ouço ruídos intrincados,
vêm da sombra, acima do taco,
abaixo das prateleiras.
Correm aranhas e mosquitos sob o teto,
talvez ratos velhos fluam das paredes.
Conformo-me a apreciar as baratas,
que não têm medo da luz
nem do único homem
estendido à frente delas.
Acabo de esmagar mais uma...
smack smack seria um beijo;
a gosma que salta do meio da barata
não permite meu romantismo.
Sujei minha botina sem sujar as mãos.
Não há beleza no meu porão, nem alegria.
As baratas passeiam, as enérgicas voam,
as tímidas sussurram e contam histórias
do grande deus sentado no trono.
E surgem mais e mais da comida do dono,
da casa, das vértebras inocentes do deus,
das palavras contingentes do papel,
tudo nesse submundo meu.

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