10 de julho de 2013

relato e retrato

é que já sem jeito no peito estúpido,
a brasa contente saltava pra dentro da gente.
e se queimava por tudo...
por ciúmes, por querer, por viver
não menos por chamar você de amor

não muito e tanto se via prisão.
talvez a ilusão, menos perigosa,
ressalte o melhor de quem ama
na realidade que cria...


a brasa, que já foi madeira, que já foi árvore,
que já abrigou um ninho de pássaros comidos
por pequenos macacos felizes famintos,
fugiu para a terra fria.


a cinza na gota d'água desmanchava,
tal qual a nossa imagem
registrada no glossy paper.

18 de junho de 2013

maravilhoso eu

as divindades já sabiam dos nossos desencontros. maculavam e maquinavam até mesmo meu romance de cabeceira; que na cabeça desguardava sua face, renegava lágrima e paixão. e tão leve e simples pedias por perdão, e tão leve e simples eu recusava.

lembra-se da noite que juntos vimos duendes? eu duvidava, tu também, mas sentimos medo, fugimos, nos encontramos, deitamos, dormimos. a isso chamo de vazão, e expelimos tudo de nós e resgatamos todo nosso mal.

sei que ainda nos veremos na rua. sei que se me peco em te perder, me ganho; por isso continuo a me pecar, por isso estendo a mão para tentar alcançar o espectro solar.

não por isso te perdoo, não por ir e voltar, não por confusos sentimentos alcançados e cansados nos olhos, não pela arrogância da voz... lembro da voz. e se me lembro bem, não perdoo. eu peço ao vago que em mim ecoa para não te pedir, por tão simples cair numa certeza cósmica ressoada: liberdade.

9 de junho de 2013

Rascunho sobre o amor

Quando o amor se torna um jogo da forca, as letras que sobram saem da boca. A palavra que se pede enforcada vacila de modo experimental. As pernas e braços finos como os traços encolhidos são tão proporcionais quanto o ânimo parceiro. Um jogo, uma escolha.

Perder para o amor é tão necessário quanto à morte, perder as letras bem desenhadas, perder o temperamento. Só se ama bem quando se perde, quando se sabe o valor da perda, quando se esquece do sangue preso ao pescoço e se entrega a própria cabeça. Só se perde bem quando se aprende a morrer pelo que vale, pela lembrança, pelo momento que transpassa entre os segundos do ponteiro. Então se escolhe viver fora da representação, dentro do mundo criado, dentro da aura quieta, certo do mundo calado, certo da pessoa que separa você do ínfimo.

Dispenso a praticidade positivista, não se vê tão bem com os olhos. Não vemos que o corpo é o peso. Recusamos aceitar o negativo que equilibra. O ódio que pulsa no peito procurando uma visão antagônica lógica. O velho que supera a força na ideia. Esta mesma ideia ferida. O feio buscando integração. O desintegrado pedindo posição.

Na forca fétida há morte, há frio. Esquecemos o fétido, não o branco. O branco ainda continua sem rumo na mistura. A morte dos que amam ainda continua a pairar no peito como uma libélula, delicadamente suspensa no ar. A morte do amor não cai no esquecimento, tal qual raposa correndo contra o vento, assume o vulto. Não fujas! Pois a fuga é o tormento mais lento em vão. O pensamento já não foge no espaço imenso. Talvez chamem de liberdade o que chamo de prisão, condição de ser amargo, de ser, ser, ser...

Até dormir de medo, até visitar a consciência e pedir pelo irreal, que mora constantemente em nós. Até desvendar o real como noção do que se é, não do que se tem. Docemente converso com corujas, docemente me certifico de perder as palavras. Perco solvido em branco, no papel rascunho dispensado na lixeira, empenhado no esforço. E, só, então, movido pelo turvo, perpassa-me a sensação de findar o evitável a caminho do descaminho.

7 de junho de 2013

Visão felina

Ouvi um miado. Fui até a janela e vi um gato branco, todo branco, de olhos negros saltados para mim. Não consegui dormir. Repeti interiormente "existe um dia amanhã", mas outra voz me respondia "mas não existe dia agora". E foi assim que a noite ladra envolveu meu estômago. Minhas têmporas saltitavam, minha testa suava... Peguei um casaco marrom gasto, calcei as primeiras sandálias que apareceram e saí de casa. Talvez eu nunca volte, porque a noite da rua parece mais acolhedora, mais minha, se parece com os olhos felinos que eu sustento em suspense.

Escuto uma bateria e uma guitarra surrando meu peito, então corro e me escondo com a mão no peito. O barulho me desvenda e sob o escuro eu sigo a lua. Espreito, tal qual gato negro despercebido, as janelas acesas. Há uma casa com um homem barbudo, escuto um sexo selvagem, sinto o cheiro do suor do homem escorrendo pelos ombros. Cansado, continuo a outro passo. Talvez haja passos entre o vento, mas não há distinção. O frio que queima os meus olhos, não percebe nada além de lágrimas felizes.

Prolongo esse pacto com a noite há mais tempo do que você possa imaginar, mais tempo que os grãos do Deserto da Namíbia, mais tempo que qualquer transgressão e transfiguração. Mais tempo que a existência do sonho, mais tempo que o vôo de uma águia, mais tempo do que o mito da esfinge. Permaneço nesse pacto com a noite até voltar a ser estrela ou até explodir aqui mesmo como luz.

Existe um gato em mim, existe a noite, existe a natureza de me sentir parte da natureza... Mas os tons de azul escuro vão-se dissipando nas retinas e tomando rosas, azuis claros, vermelhos, laranjas e cinzas. A manhã surge me envergonhando no meio da rua. Vejo o gato branco de perto, ele me fita com mais seriedade do que um pai severo. E meus passos alcançam o fim do escuro em direção a porta. Que porta? Que chave? Para vendar meu interior e dar-me a sensação de segurança, penetro o interior da minha selva. Assim permaneço através dos milênios, assim a noite permanece em mim.

16 de abril de 2013

verdades incompletas

sabia
na noite que passou
do sentimento urgindo
no peito, na vontade
caindo pela metade
esse esquecimento
que a verdade esconde
acima do travesseiro

saiba
na certeza do amor
que a vida não corre
no anti-horário
nem as mazelas
filtram os sonhos
do inevitável
suprindo o conhecer

12 de abril de 2013

aqui jaz um grão de areia

não sou menos homem, nem menos mulher ou menos criança do que já fui ou serei. sou exatamente na medida que posso e que preciso. sou o orgulho do pai, a fé da mãe, sou parte irmão e parte do meu irmão.
ergo o punho concreto num soco se necessário, sou menos humano às vezes. e as vezes que precisei ser humano fui bem-sucedido. este mesmo punho é o que se abre e aperta uma mão, afaga uma face, limpa lágrimas.
em outras horas, me pego sentado resgatando fotos dos meus antepassados, colecionando objetos que não cabem em mim. cabem na prateleira amarela do meu quarto. sabem eles de palavras que não usei, sabem estratégias peruanas para conservar o barro bonito.
e eu vou desentendendo a minha idade... desentendo se a emoção sobrevêm a construção de sentido ou se desconstruir poderá. sabem sim que são inteiramente finais, mas permanecerão. nós, pelo contrário, somos o início e a transmutação do que há de vir. nós construímos melhor de dentro. não existe representação que supra... amar.

1 de abril de 2013

Soberbo

Pelo olho mágico, avisto um corredor. Cada tapete em cada porta, cada vida por trás da gente sendo escondida. Não tão mágico. Magia é quando me transporto para fora, para fora da vida que já conheço... E começo a desconhecer cada vida que há do outro lado. Magia é ter muitas perguntas sem respostas e delas fazer surgir uma flor.

Embebedado de medo, continuo a atravessar a rua. A noite, que engole metade do mundo no descaminho, envolve também os casais em praças, bares e naquela lanchonete encontrada num domingo. Há fome em mim. Fome de olhos que me notem. Há fome de vaidade. Esta fome revela o que me falta e não me alimento do que quero. Eu devoro nos olhos o que arde em carne e misturo vida e vazio na mesa que sento.

Descubro muitas histórias, conto outras. Algumas eu até sei cantar. Outras podem ser enfeitadas sem magia, distorcidas, murchadas, luzidas. Assim desconheço pessoas que conheço. Assim o espírito entristece, a mágoa surge. Assim me calo sozinho na mesa e sorrio para as garçonetes que me subjugam com olhares penosos. Mal sabem elas que existe alegria na volta, existe um cigarro, um passo largado, uma chave para abrir minha própria porta e tornar a ver através do pequeno óculo distorcido o quanto eu preciso expandir.

14 de fevereiro de 2013

Clarissa

Ela tem uma fazenda.
Cuida do gado, do pasto,
do homem, do lago,
do gato e do bem,
que nela explode
quando cata o xerém.

Casou atrás da moita,
deitada no mato,
de perna aberta,
de olho no céu.

Meses depois perdeu
no mesmo mato uma vida
e chorou sob o mesmo céu,
sobre a terra molhada que
tanto lavrara abaixo de Deus.

Mas o homem ficara
e a luta também.
Em várias noites
ele enchera a cara,
soltava o verbo
esporeava a mulher,
já tão delicada que
não contestou.
A vida que dorme
já calejou o mais enorme
dos corações.

Não queria colchão de mola,
muito menos esmola pedira...
Alguém soprou na janela
e todas as portas abriram,
os móveis antigos pularam,
a chuva bateu, o vento secou,
o sol se escondeu, o raio passou,
a folha caiu, a neve já caía
em algum outro canto,
que Clarissa não sabia
até se fechar para o
mais teimoso descansar.

2 de fevereiro de 2013

lembranças


tanta coisa bendita fora desdita
nestes meus calos emergentes
tanto pesar, tanta dor escondida
que nunca precisei esconder,
que supre em ti esse ego,
esta necessidade de se sobrepor

tantas horas, ah, quantas horas
e filmes e beijos e sexo cruel
acima do meu pulmão ofegante,
da minha garganta soluçante,

após e através, lágrimas
além e antes, amor
amor
amor
amor
que some em outras horas
em muitas outras
amém

16 de janeiro de 2013

Vida e morte das baratas

Na minha casa há um porão.
Desço lá todos os dias para escrever.
Há apenas uma lâmpada amarela
pendurada por um fio.
Por um fio também se penduram
as minhas idéias amontoadas.
Por um fio, muito do mundo
pode ser pendurado.
Ouço ruídos intrincados,
vêm da sombra, acima do taco,
abaixo das prateleiras.
Correm aranhas e mosquitos sob o teto,
talvez ratos velhos fluam das paredes.
Conformo-me a apreciar as baratas,
que não têm medo da luz
nem do único homem
estendido à frente delas.
Acabo de esmagar mais uma...
smack smack seria um beijo;
a gosma que salta do meio da barata
não permite meu romantismo.
Sujei minha botina sem sujar as mãos.
Não há beleza no meu porão, nem alegria.
As baratas passeiam, as enérgicas voam,
as tímidas sussurram e contam histórias
do grande deus sentado no trono.
E surgem mais e mais da comida do dono,
da casa, das vértebras inocentes do deus,
das palavras contingentes do papel,
tudo nesse submundo meu.