Não contenho meus segredos, não freio dores, não desprezo sorrisos.
Penso agora nas notas musicais que inevitavelmente expremem-se quando falo.
Você, por outro lado, canta as palavras e os sons criam um espaço que não
existia em mim.
Todos os dias recrio meu outro espaço, colo um pedaço de passado nas
pegadas da areia que o mar completa. O passado não permite que eu minta, por
isso uso metáforas e digo com propriedade de alguém que entende de flores: seu
cheiro é o meu caminho. E eu com meus pés cansados apenas continuo a andar, sem
necessidade de reflexos prezados nas gotas de café. Mantenho-me acordado por
paixão, por nó gostoso de ansiedade na garganta das coisas que precisam ser
ditas mas não são.
Talvez qualquer dia eu esporre "eu te amo" enquanto fumamos um
baseado, e sairá como uma dessas frases que já compõem a nossa vida, como se
funcionasse de modo casual, mas sinto que... há prática. Sinto que estou aqui
me perdendo e desprendendo de vários temores e cutucando várias cicatrizes e
despertando vários seres mágicos ao meu redor, estou aqui e nunca estarei
pronto o suficiente, sempre tentando e renovando meus medos e atiçando minha
insegurança, por não haver outro gesto de te amar.
Há prática e também muita mudança e muita aceitação e várias outras
adições nesse meu sentimento que me permitem ser sincero como os diferentes
tons de amarelo no céu fundidos com o único propósito de fazer o sol nascer.
Eu te amo assim, ao ver as nuvens deslocadas sem formar desenho algum,
mas entendendo um pássaro ou trem ou duende que você me revele. Eu te amo do
modo mais simples e mais fácil, que não precisa ser explicado por quê, mas
sentido no cheiro do nosso suor e gozo e saliva misturados. Eu te amo e
continuaria a te amar em eternas linhas que não valeriam de nada se não
houvesse presença e lembrança de cheiro. Eu te amo porque, apesar de simples, é
difícil te reconquistar a cada segundo, é difícil te querer nos meus planos e
me questionar a todo instante quais são os teus.
E não me vale de nada todo esse amor, que dói e machuca às vezes, se
você não durar para mim e comigo. Não me vale de nada te amar porque já te amo
arriscando o meu tempo e o meu "quem sou eu". E, mesmo sabendo que de
nada valem algumas linhas perpétuas e vários "eu te amo" consagrados
por união, continuarei assim, vendo quatro pegadas na areia da praia que
sumirão em meio a ondas nostálgicas, em meio a calmaria, interserida a tanto
barulho. Sumirão para dentro do que chamo de infinito. Porque por mais que o
meu amor arrisque finitude, a natureza guardará esse nosso pacto secreto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário