29 de agosto de 2012

Caindo em mim


Sou eu sem fim. No findo gritante de Gal. Sou eu a viagem e o verde espalhado na lembrança da janela que corre embaçada, deixando um mundo para trás. Agora com toda essa insignificância traçada entre nós, em meio a rio e riso, na importância da consonância de sonhos.

Admiro... E afundo. Então brilho mais por dentro, porque não entendo a profundeza dos oceanos, mas sinto de algum modo o infinito. Guardo cheiros como guardo meus livros. Entrego meu cinza nos lábios e meu vermelho na alma. Sou eu no Quero de Drummond, nas horas da Virginia, sôo o tempo.

No mais asqueroso de Clarice, me perco e me enxergo. Já decidi que não posso pisar em mim como piso numa barata, então eu me entrego e me ato em Almodóvar. Mais sensível ainda com uns. Mais sentido ainda esboço nesse corpo, ora virginiano ora eu. Sou eu o pássaro azul preso na gaiola de Bukowski.

A saída sou eu, o descaminho, o pérfido, o impuro... E navego nos cachos e nas mãos e nos ombros, enquanto amo. Reconheço-me em todos que conheço e conheço pouco, componho-me dessa Construção de Chico. Construo-me de João, Maria, Pedro, André e todo menino que não tem nome nesse agosto despedaçado.

E há certa beleza no fundo no fundo.

8 de agosto de 2012

Devora-me


Tento ser sensitivo com o que tenho e me ponho tão exposto a ponto de ninguém me adivinhar, porque não há o quê. Se no ar observo as folhas secas flutuarem e na noite subsiste o meu retiro, se só pesco algumas aspirações recordadas em fitas de videocassete, é porque não tenho aonde ir.
Já estamos aqui... E que estar seja tão valioso quanto ser e tão valioso quanto todos os verbos e toda palavra e a falta de palavra por fim. Já soube da nossa amizade, eu já me mudei incontáveis vezes, já soube o que não devia e hesito agora no que quero. Não são somente as circunstâncias que conectam as pessoas, nem me flagelo, nem esfrio.
Passes aqui bem perto, o mais próximo do peito, e escuta com calma... E no teu peito ouço outro som. Não te assustes com os mais diferentes ritmos, nem poderes, nem tamanhos. Saiba mais de outras batidas, descubra tu mesmo além de mim. Permita-se, no fim, acreditar no verbo e no silêncio, até o refugiado momento de apenas parar.

3 de agosto de 2012

Guarda-chuva amarelo

Nos paralelepípedos parei sonolento, sentei na calçada molhada e vigiei a vida. E as ruas não paravam, nem as pessoas soltavam votos de confiança entre os pequenos olhares. Não senti frio, nem dor, nem fome, me escondia em mim, segurando aquela sombra amarela-reluzente. Confesso ter esse espírito cansado confinado a você, que me lê e me entende de algum modo.
Já levantei a alma para ver o além, já levantei a vida de alguém, e de algum modo transpus meu maior bem. Acima da terra, revejo esse peso que é querer. E se te possuo, me peco tentando novos passos, tramando uma música na garganta cheia de nós.
Eu agora caminho numa pista vazia, percebo fantasia como loucura e a loucura me acolhe assim como o pouco saber. Assim entre as verdades enraizadas abaixo dos pinheiros no inverno. Em meio a um cinza que cobre o sol e que descobre o âmago do céu, que já tanto guardou chuva, eu recito esse amarelo a ti para que tenhas noção do secreto que ao fim de mim recua. Sim, amor.