24 de dezembro de 2012

meu sopro no teu

"nada sóbrio", eu dizia entre um sorriso e outro
coragem não sentia de pé
colhi sopros
aqueles que as Ritas aspiram por longas estações

hoje dormi às 4 à espera de uma carta, um soneto, uma frase
a espera de uma notícia, que me toque ou me surpreenda, guarda séculos em segundos
e como espero essa ligação, que já sem voz me aponte teu cais interior
queria tanto e quereria mais que este controle, o qual descubro não ter,
se agarrasse irremediavelmente às minhas vestes
ou se agarrasse em minha pele desanimada
para que a falta me entenda e me aceite

para que a falta também te entenda,
eu solto sopros no ar quente
sopro frio, mas me cabe devolver-te algo meu

que a tua distância não me afogue,
que não me vaze o peito,
que não me traga no agora a parte discreta de ti

adeus

23 de novembro de 2012

Psique

Silêncio. Existem palavras mais completas e por entre as significações esbanjo quietude. Sim, silêncio aprendi desde pequeno. E talvez silêncio se confunda com timidez, mas é verdadeiro o valor que emprego e estremeço. E a lágrima que cai, tal qual chamo de coisa, porque como bem sabemos coisa pode significar tudo e não caber dentro de si, essa lágrima exporta o sentimento para o mundo. Penso que este mundo já é carregado e pesado demais. Arrisco-me dizendo "silêncio" e o quebro feito porcelana. Arrisco mais a minha face estranha no espelho, demarcada por vermelhidão. Por comoção sopro silêncio e o disperso na única coragem que me permito: escrever. E parto mais ainda, parto com dor, esquisito.

Sei que, se humanidade já nasce como característica e se esta for estremecida durante a vida, a pele vai desenhando um contorno maligno e nas mãos, estas verdadeiras fontes de energia, vários contornos embaraçam-se e linhas projetam-se pela necessidade de futuro. E um terremoto estranho sorvido de paz – já que quando há excesso transborda e tudo que transborda também afoga – renuncia o próprio desejo de integridade. Não vejo as pessoas inteiras, se lhe falta um braço ou perna ou olho pode-lhe sobrar sensibilidade de outro sentido, mas pior é quando a falta não é do membro mas da própria sensibilidade.

Não sei, há dúvida até do que penso conhecer e isso chama-se razão, porque para se alcançar o tenro sórdido secreto em si é preciso não estar calçado e andar pelas calçadas da cidade. É também ver-se no reflexo crédulo de Narciso, este que não precisou de lágrimas para se afogar. Nem fundir-se com o inevitável altera a sorte, é necessário muito esforço para ser cético e vem como uma quase atuação tragicômica. Rio então pela alma e a alma me responde assim: sim.

18 de novembro de 2012

Amaré


Não contenho meus segredos, não freio dores, não desprezo sorrisos. Penso agora nas notas musicais que inevitavelmente expremem-se quando falo. Você, por outro lado, canta as palavras e os sons criam um espaço que não existia em mim.

Todos os dias recrio meu outro espaço, colo um pedaço de passado nas pegadas da areia que o mar completa. O passado não permite que eu minta, por isso uso metáforas e digo com propriedade de alguém que entende de flores: seu cheiro é o meu caminho. E eu com meus pés cansados apenas continuo a andar, sem necessidade de reflexos prezados nas gotas de café. Mantenho-me acordado por paixão, por nó gostoso de ansiedade na garganta das coisas que precisam ser ditas mas não são.

Talvez qualquer dia eu esporre "eu te amo" enquanto fumamos um baseado, e sairá como uma dessas frases que já compõem a nossa vida, como se funcionasse de modo casual, mas sinto que... há prática. Sinto que estou aqui me perdendo e desprendendo de vários temores e cutucando várias cicatrizes e despertando vários seres mágicos ao meu redor, estou aqui e nunca estarei pronto o suficiente, sempre tentando e renovando meus medos e atiçando minha insegurança, por não haver outro gesto de te amar.

Há prática e também muita mudança e muita aceitação e várias outras adições nesse meu sentimento que me permitem ser sincero como os diferentes tons de amarelo no céu fundidos com o único propósito de fazer o sol nascer.

Eu te amo assim, ao ver as nuvens deslocadas sem formar desenho algum, mas entendendo um pássaro ou trem ou duende que você me revele. Eu te amo do modo mais simples e mais fácil, que não precisa ser explicado por quê, mas sentido no cheiro do nosso suor e gozo e saliva misturados. Eu te amo e continuaria a te amar em eternas linhas que não valeriam de nada se não houvesse presença e lembrança de cheiro. Eu te amo porque, apesar de simples, é difícil te reconquistar a cada segundo, é difícil te querer nos meus planos e me questionar a todo instante quais são os teus.

E não me vale de nada todo esse amor, que dói e machuca às vezes, se você não durar para mim e comigo. Não me vale de nada te amar porque já te amo arriscando o meu tempo e o meu "quem sou eu". E, mesmo sabendo que de nada valem algumas linhas perpétuas e vários "eu te amo" consagrados por união, continuarei assim, vendo quatro pegadas na areia da praia que sumirão em meio a ondas nostálgicas, em meio a calmaria, interserida a tanto barulho. Sumirão para dentro do que chamo de infinito. Porque por mais que o meu amor arrisque finitude, a natureza guardará esse nosso pacto secreto.

15 de novembro de 2012

Inseparável


estradas, carros e passarelas
andando em becos
somos gatos

descubro:
surtir no acaso
não é se libertar

não cabe a sorte
sermos vozes
ou apenas vozes
somos nós?

levanto ligeiro
busco o cinzeiro
mas sujo a sala de cinzas
como quem suja a vida

verdade esclarece tudo
talvez mentir acalme

7 de setembro de 2012

No mais, adeus


É tão importante que me vejas agora na primavera, agora que o trem percorre o campo. Não molhei por muito os olhos, e por muito me sustento no parapeito da janela e laço com o respirar a fumaça. É importante esse estado primaveril e o frescor que duvida paz, mas entende. 
Encontrei meu próprio labirinto e a saída me parecia tão fácil... mas não saí. É tão importante que leves também tuas meias, já não as uso. Faz calor onde moro. Aprendi a dançar, mas continuo a desaprender como falar-lhe da vida. Vejo ponteiros se contorcendo diante das flores que plantei.
Aprendi a sorrir e de ombros caídos sonhar; sem questionar porquês, descartáveis de algum modo. Se tu soubesses da primavera como eu sei - preenchendo notas no espelho e virgulando as sombras espalhadas, que param no que não são. Se tu pusesses a ti atento...
É tão importante que me vejas agora, porque eu não te veria! Das mudanças que cercam nossas tempestades, das mudanças entre calar e sentir-se inteiro, afrouxa-se mais liberdade. Perdi as ondas e a vidência. Desprendi-me dos medos de inverno, que não são propriedades das estações, porque tu és livre. Não te impeças de crescer no princípio, pois não te impedirei de levar meu abraço.

29 de agosto de 2012

Caindo em mim


Sou eu sem fim. No findo gritante de Gal. Sou eu a viagem e o verde espalhado na lembrança da janela que corre embaçada, deixando um mundo para trás. Agora com toda essa insignificância traçada entre nós, em meio a rio e riso, na importância da consonância de sonhos.

Admiro... E afundo. Então brilho mais por dentro, porque não entendo a profundeza dos oceanos, mas sinto de algum modo o infinito. Guardo cheiros como guardo meus livros. Entrego meu cinza nos lábios e meu vermelho na alma. Sou eu no Quero de Drummond, nas horas da Virginia, sôo o tempo.

No mais asqueroso de Clarice, me perco e me enxergo. Já decidi que não posso pisar em mim como piso numa barata, então eu me entrego e me ato em Almodóvar. Mais sensível ainda com uns. Mais sentido ainda esboço nesse corpo, ora virginiano ora eu. Sou eu o pássaro azul preso na gaiola de Bukowski.

A saída sou eu, o descaminho, o pérfido, o impuro... E navego nos cachos e nas mãos e nos ombros, enquanto amo. Reconheço-me em todos que conheço e conheço pouco, componho-me dessa Construção de Chico. Construo-me de João, Maria, Pedro, André e todo menino que não tem nome nesse agosto despedaçado.

E há certa beleza no fundo no fundo.

8 de agosto de 2012

Devora-me


Tento ser sensitivo com o que tenho e me ponho tão exposto a ponto de ninguém me adivinhar, porque não há o quê. Se no ar observo as folhas secas flutuarem e na noite subsiste o meu retiro, se só pesco algumas aspirações recordadas em fitas de videocassete, é porque não tenho aonde ir.
Já estamos aqui... E que estar seja tão valioso quanto ser e tão valioso quanto todos os verbos e toda palavra e a falta de palavra por fim. Já soube da nossa amizade, eu já me mudei incontáveis vezes, já soube o que não devia e hesito agora no que quero. Não são somente as circunstâncias que conectam as pessoas, nem me flagelo, nem esfrio.
Passes aqui bem perto, o mais próximo do peito, e escuta com calma... E no teu peito ouço outro som. Não te assustes com os mais diferentes ritmos, nem poderes, nem tamanhos. Saiba mais de outras batidas, descubra tu mesmo além de mim. Permita-se, no fim, acreditar no verbo e no silêncio, até o refugiado momento de apenas parar.

3 de agosto de 2012

Guarda-chuva amarelo

Nos paralelepípedos parei sonolento, sentei na calçada molhada e vigiei a vida. E as ruas não paravam, nem as pessoas soltavam votos de confiança entre os pequenos olhares. Não senti frio, nem dor, nem fome, me escondia em mim, segurando aquela sombra amarela-reluzente. Confesso ter esse espírito cansado confinado a você, que me lê e me entende de algum modo.
Já levantei a alma para ver o além, já levantei a vida de alguém, e de algum modo transpus meu maior bem. Acima da terra, revejo esse peso que é querer. E se te possuo, me peco tentando novos passos, tramando uma música na garganta cheia de nós.
Eu agora caminho numa pista vazia, percebo fantasia como loucura e a loucura me acolhe assim como o pouco saber. Assim entre as verdades enraizadas abaixo dos pinheiros no inverno. Em meio a um cinza que cobre o sol e que descobre o âmago do céu, que já tanto guardou chuva, eu recito esse amarelo a ti para que tenhas noção do secreto que ao fim de mim recua. Sim, amor.

24 de abril de 2012

Cicatriz

se me dispo as vestes,
na pele envolta de marcas
contribuo o teu mistério,
pois nada além verás

sórdida confiança,
porca, suja!
preciso ser honesto

no erro não contento
o sagrado...
desfaço as malas
refaço
desmancho a cama
sujo o lençol
refaço mais o dia

é suor!

é cheiro também
sucumbido de prazer
de soltar meu quase
"é você",
e volto atrás.